O texto a seguir reflete apenas o meu ponto de vista, baseado na minha experiência como economista formado, e como cidadão brasileiro assalariado, responsável pelas minhas próprias contas. Os meus argumentos, além de refletirem as minhas próprias vivências, também são fruto de uma busca incansável (embora às vezes canse) por informação clara e objetiva, bem como da checagem, o mais minuciosa possível, dos resultados encontrados. Fique à vontade para concordar ou discordar!
A verdade é que eu sempre defendi que as Finanças Pessoais deveriam ser administradas como uma empresa. Enquanto pessoa física, e isso eu detalho muito mais no texto que escrevi em março deste ano, a minha preocupação fica restrita ao conceito de suprir as minhas necessidades. Desde alimentação para me manter em pé até um jatinho particular, tudo são necessidades (contestáveis ou não) que vão se moldando de acordo com os recursos disponíveis. Como pai (e pai ou mãe de pet também contam) às vezes somos responsáveis não só pelas nossas necessidades, mas as de alguém que depende de nós. Como marido, ou qualquer pessoa que conviva com outras pessoas, às vezes as nossas necessidades irão conflitar com as necessidades dos outros. Daí vem a minha ideia de que viver, é basicamente gerenciar necessidades de acordo com recursos. Recurso = Dinheiro!
O objetivo de uma empresa é, e sempre será, gerar lucro. Salvo um percentual praticamente desprezível para a minha análise, empresas são constituídas para serem a fonte de recursos para que seus criadores (e/ou herdeiros) possam suprir as suas necessidades. No capitalismo tradicional nós temos sempre a figura do empresário, detentor do capital, e do trabalhador, que é de quem o empresário depende para fazer a sua máquina funcionar, e assim obter o seu lucro. Assim como nas nossas casas, temos que estar atentos aos nossos custos e despesas, e estamos sempre em busca de como otimizar nossos recursos, uma empresa otimiza seus lucros reduzindo suas despesas. Ou ainda, repassando os seus custos para o cliente final. E é aqui que mora uma das diferenças centrais entre a pessoa e a máquina. O consumidor não tem a opção de repassar o custo à frente, ele só pode administrar a despesa.
Eu não sei se você sabe, mas esse dado é público e fácil de encontrar, cerca de 50% das despesas do governo são aposentadorias e pensões, seguidas por juros da dívida, defesa, saúde, educação, salários de servidores e praticamente na última posição, com cerca de 5% estão os programas sociais. Até mesmo o custeio dos três poderes, ou até de todos os funcionários públicos não é muito superior a 10% de toda a arrecadação. Administrar bem esses recursos é fundamental para um governo, e eu acredito que há muito o que melhorar, principalmente se houvesse uma união de forças em prol das pessoas. Mas não das pessoas individualmente com o discurso muito falho da meritocracia, mas das pessoas coletivamente, como sociedade interdependente onde cada cidadão é importante, assim como o seu filho ou seu pet.
Agora o ponto central: considere que a despesa majoritária do governo é com aposentadoria e fixe um paralelo como se ela representasse o lucro da empresa. Atenção, eu não estou dizendo que são despesas equivalentes do ponto de vista operacional, mas do que elas representam e o porque não podemos ver governo como empresa. Tente argumentar com um empresário ou com os sócios de uma empresa de que eles terão que cortar a sua margem de lucro ou as suas retiradas (que são conceitos bem diferentes na ótica do dono) para promover um equilíbrio na empresa. As alternativas que vão aparecer sem sequer cogitar a sugestão inicial serão o aumento dos preços finais e o corte de pessoal.
O fato é que o governo tem muito pouca margem de manobra com as aposentadorias, não pode fazer cortes expressivos em saúde e educação (que não, não são de uma eficiência exemplar, mas são absolutamente essenciais para muitas pessoas) e o que quase ninguém percebe é que o equivalente a corte de pessoal nas empresas não é igual ao corte de funcionários públicos. O corte de pessoal para o governo é deixar de suprir serviços públicos. Essa é a correta relação na administração pública versus privada. A empresa demite e aumenta os preços, o governo retira recursos de áreas em que ele é a única alternativa e aumenta impostos.
E já vou deixar claro aqui que eu sou contra novos impostos. Pois já é provado que isso só provoca aumento do custo de vida e que os benefícios que deveriam vir são diluídos em grandes porções de corrupção e má gestão. No entanto, atitudes radicais como os famosos termos "tesouraço" e "tarifaço" provocam apenas efeitos distintos, mas igualmente negativos a população. Eles fazem bem para o caixa da empresa, mas não aos seus funcionários. Corte de impostos diminui a inflação (ela desacelera, não reduz preços) mas o custo disso é congelamento de salários. Enquanto que aumento da arrecadação através de tarifa, só transfere o custo para o consumidor, simples assim. Nos dois casos o governo/empresa aumenta seus recursos, mas o povo/empregado fica com a conta.
Numa empresa essas estratégias funcionam porque a ótica defendida é sempre a do empresário. Ninguém fala sobre o que aconteceu com quem perdeu o emprego ou como o consumidor final fez para pagar o preço mais alto. No governo o empresário é a própria máquina, seus políticos, e isso inclui o congresso todo, são só funcionários comissionados, que estão ali apenas enquanto mantiverem seus votos e no fundo nenhum deles está preocupado de verdade com o legado e o futuro dessa empresa chamada Brasil.
E no fim das contas não há fórmula mágica. A direita defende seus interesses, a esquerda defende seus interesses, em alguns momentos você terá pequenas sensações de estar sendo beneficiado, em outras terá claras evidências de estar sendo prejudicado, mas ainda assim você vai ter que responder a pesquisa de satisfação a cada dois anos, ajudando a moldar o que vai acontecer com você, desde os pequenos departamentos, também chamados de cidades, até o próprio CEO e seus diretores. E o resultado de um vale para todos, mas as consequências são personalizadas, tal qual os anúncios que você recebe no seu celular, na sua bolha.
Mas... para citar Racionais MCs "quem é que vai acreditar no meu depoimento?". Aqui quem fala é só mais um CPF, que paga IPVA, contribui com o INSS, sofre com alíquota do IR, às vezes tem um CDB, outras um CDC e segue a vida tentando equilibrar necessidades (questionáveis ou não) com recursos sempre limitados.